sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Scliar é o grande homenageado no 2º dia de Bienal do Livro


Encontro reúne Veríssimo, Augusto Fischer e Domício Proença Filho
                 
                                                                            *por André Luiz Cardoso


Foto: Ricardo Ramos (Divulgação)
O escritor gaúcho Moacyr Scliar, morto em fevereiro, foi o grande homenageado do segundo dia da XV Bienal do Livro Rio. A concorrida sessão do Café Literário, nesta sexta à tarde, contou com a participação do editor Luiz Schwarcz e dos escritores Luís Fernando Veríssimo, Luís Augusto Fischer e  Domício Proença Filho num bate-papo marcado pela nostalgia e por lembranças saborosas sobre o autor de O exército de um homem só e Guerra no Bom Fim. Durante a mesa-redonda, o fundador da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, anunciou que a editora lançará em breve dois livros de Scliar: um reunirá textos publicados nos jornais Folha de São Paulo e Zero Hora, e o outro terá crônicas inéditas. A sessão foi acompanhada pela viúva do escritor, Judith Scliar.
Estimulados pelo mediador do debate, o escritor e curador do Café Literário, Ítalo Moriconi, os participantes da mesa lembraram os mais variados aspectos da vida e da carreira de Scliar: médico, judeu, gaúcho, escritor, cronista, generoso, pacifista e viajante. Schwarcz se emocionou ao lembrar do amigo e elogiou seu estilo:
“Ele tem uma prosa leve, fluente, que tem um certo pessimismo judaico, mas que aos poucos adquire uma  enorme grandeza. Scliar me ajudou muito quando fundei a Companhia das Letras. Ele me adotou, foi um dos grandes amigos, e digo que não foi um pai, mas uma mãe para mim”.
Já o imortal Domício Proença Filho recordou momentos ao lado de Scliar em Porto Alegre:
“Certa vez, ele veio me visitar em Porto Alegre. No dia seguinte, fui fazer compras e o dono da quitanda me deu 50% de desconto. Não entendi o motivo e ele me disse que eu era amigo de uma pessoa muito importante, o acadêmico Moacyr Scliar”.
Luis Augusto Fischer comentou sobre a diversidade da obra do escritor gaúcho:
“Ele também escrevia para o público infanto-juvenil. Se uma escola do interior o chamasse para falar com alunos da sétima série que leram o livro dele, ele ia. Era muito generoso, ao contrário de escritores até mais novos, que assumem certo ar blasé”.
Outra característica muito comentada sobre a personalidade do autor foi sua cordialidade. Veríssimo lembrou que ele não se dizia nem colorado nem gremista, mas sim torcedor do modesto Esporte Clube Cruzeiro, pequeno time de Porto Alegre: “Em Porto Alegre, existem duas forças no futebol, o Inter e o Grêmio. O Scliar, talvez para não entrar em conflito, se dizia cruzeirense”, lembrou, com galhardia.
Logo depois, o ator Eriberto Leão abriu o espaço Livro em Cena, sessão em que atores dão vida a alguns dos personagens mais célebres da nossa literatura, com a curadoria do diretor teatral Gabriel Villela. Leão declamou quatro poesias de Castro Alves: Vozes d’África, Navio Negreiro, Adormecida e Quando Eu Morrer.
Desde o início, Eriberto procurou mostrar sua identificação com Castro Alves, já que, ao atuar na novela “Sinhá Moça”, ele protagonizou um escravo branco. “Castro Alves faz parte da minha vida. Na novela, declamava poemas de Castro Alves. O Navio Negreiro, por exemplo, é o que mais me sensibiliza: ao mesmo tempo que ele mostra tristeza, ele elucida a revolta. É a luta pela dignidade”, disse.
Ao fim, o ator afirmou que Castro Alves é a prova viva de que pode se fazer obras atuais com a qualidade de autores do passado.
“Em 1860, ele disse coisas que as pessoas não entenderam até hoje. É possível aliar as produções da televisão com a qualidade das poesias e temas abordados por Castro Alves”, afirmou.

* Professor de jornalismo da Universidade Candido Mendes e da Faculdade Pinheiro Guimarães, responsável pela disciplina de Cobertura Jornalística de Grandes Eventos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário